A leishmaniose em gatos recebe pouca atenção: quando se fala da doença, quase todo mundo pensa em cães. Mas os gatos também podem ser infectados pelo mesmo parasita, e como a doença é discreta nessa espécie, ela tende a passar sem diagnóstico. Se você mora em uma região onde a leishmaniose visceral circula, vale conhecer o risco, os sinais que merecem uma consulta e o que realmente ajuda a proteger o seu gato.
Orientação principal: a leishmaniose felina tem sido descrita com menos frequência do que a canina, mas já foi relatada no Brasil, inclusive em áreas onde a doença é endêmica. Um gato com feridas de pele que não cicatrizam, perda de peso sem explicação ou linfonodos (ínguas) aumentados deve ser avaliado por um médico-veterinário, e o resultado de qualquer exame precisa ser interpretado por ele. A prevenção se apoia em controlar o inseto transmissor e em manter o gato dentro de casa, sobretudo do entardecer ao amanhecer. Não use produtos antiparasitários de cães em gatos.
O que é a leishmaniose em gatos e como o gato se infecta
A leishmaniose é causada por protozoários (parasitas microscópicos) do gênero Leishmania. No Brasil, a forma visceral, que atinge órgãos internos, é causada por Leishmania infantum. O Ministério da Saúde descreve que a transmissão ocorre pela picada de fêmeas infectadas de flebotomíneos, insetos pequenos conhecidos como mosquito-palha, e que o principal transmissor no país é o Lutzomyia longipalpis.
O mosquito se infecta ao picar um animal infectado e passa o parasita adiante na picada seguinte. Em áreas urbanas, o cão é o principal reservatório, isto é, o animal que mantém o parasita circulando. O gato pode ser picado pelo mesmo inseto e se infectar.
Uma revisão científica de 2021 (em inglês) considera a transfusão de sangue uma via provável, mas ainda não confirmada, de transmissão em gatos, e não confirma a passagem de mãe para filhote nessa espécie. A picada do inseto continua sendo o caminho principal.
O gato transmite a doença?
Essa é uma pergunta que a ciência ainda não fechou. Um estudo brasileiro de 2023 (em inglês) com gatos de abrigo em uma área endêmica de São Paulo lembra que não há consenso sobre o papel do gato no ciclo da doença. Experimentos mostram que gatos infectados conseguem infectar o mosquito, e por isso eles são apontados como possíveis reservatórios secundários, enquanto o cão segue como o principal.
Na prática, o que as fontes descrevem é a transmissão pela picada do mosquito, e não pelo contato direto com o animal. O controle do inseto no ambiente protege todos os animais da casa e também as pessoas.
Sinais da leishmaniose em gatos
Muitos gatos infectados não mostram nada, o que dificulta saber quantos casos existem. Quando há sinais, eles costumam ser inespecíficos. No estudo brasileiro acima, em 166 gatos de abrigo, as lesões de pele foram o achado mais comum (41% dos gatos), sobretudo na cabeça. Também foram observados:
- perda de peso e aparência de magreza extrema;
- linfonodos aumentados (as ínguas);
- feridas ou nódulos na pele, com frequência no rosto, no focinho e nas orelhas;
- alterações nos olhos;
- diarreia.
A revisão de 2021, que reúne casos descritos em vários países, aponta alterações de pele em cerca de 75% dos gatos com a doença, principalmente nódulos, e inflamação nos olhos em cerca de um quarto deles.
Esses sinais não são exclusivos da leishmaniose. Eles aparecem em muitas outras doenças, inclusive nas de pele, como a esporotricose. Por isso, nunca tire conclusões pelas feridas: só o veterinário, com exames, consegue diferenciar. Sobre a esporotricose, que também é uma zoonose e tem cuidados específicos, veja o guia de esporotricose em gatos.
Por que o diagnóstico é difícil
No estudo brasileiro, 15% dos gatos foram positivos em um teste de anticorpos (ELISA), 53,6% em outro (imunofluorescência, IFAT) e só 3,6% no PCR, que procura o material genético do parasita. Ou seja, os testes discordaram bastante entre si. Os autores afirmam que combinar métodos moleculares e sorológicos é essencial e sugerem que, em áreas endêmicas, gatos com sinais clínicos e alterações em exames de sangue sejam testados.
A revisão de 2021 lembra ainda que um PCR positivo pode refletir uma infecção passageira e que uma sorologia positiva indica, formalmente, apenas contato com o parasita. Para o tutor, o ponto prático é este: um único resultado, positivo ou negativo, raramente conta a história inteira. Quem decide quais exames fazer e o que o resultado significa para aquele gato é o veterinário. Também cabe a ele orientar sobre tratamento, que não é uma decisão para tomar em casa.
Quando procurar o veterinário
Marque uma consulta se o seu gato apresentar:
- feridas, crostas ou nódulos na pele que não cicatrizam;
- emagrecimento sem mudança na alimentação;
- ínguas aumentadas;
- apatia, perda de apetite ou diarreia que se repetem.
Procure atendimento sem demora se, junto desses sinais, houver prostração intensa, recusa total de comida por mais de um dia, dificuldade para respirar ou sangramento. Para entender o que esperar da consulta, veja primeira consulta do gato. Se você mora em área onde a leishmaniose visceral é notificada, avise o veterinário: essa informação ajuda a decidir quais exames pedir.
Como reduzir o risco da leishmaniose em gatos
A revisão de 2021 afirma que, no momento, não há vacina nem medicamento que previna a leishmaniose em gatos. Por isso, a prevenção se concentra no inseto transmissor. As medidas de controle do inseto descritas pelo Ministério da Saúde e pela Prefeitura de São Paulo incluem:
- limpar o quintal com regularidade e retirar folhas, frutos, fezes de animais e restos de madeira, que mantêm o solo úmido e rico em matéria orgânica, onde o inseto se desenvolve;
- dar destino adequado ao lixo orgânico;
- limpar os abrigos de animais e manter os animais afastados da casa, principalmente à noite;
- usar telas de malha fina em portas e janelas.
O mosquito-palha tem atividade noturna, do entardecer ao amanhecer. Para o gato, isso reforça uma boa prática que já recomendamos por outros motivos: mantê-lo dentro de casa nesse período, com as janelas teladas (veja como preparar uma casa segura para o gato). A aplicação de inseticida em paredes e abrigos é uma ação das autoridades de saúde, indicada em áreas de transmissão: procure a vigilância de zoonoses do seu município para saber o que se aplica ao seu bairro.
Quem convive com cães em área de risco deve falar com o veterinário sobre a proteção deles. Controlar a doença nos cães ajuda a reduzir a circulação do parasita para todos.

Cuidado com produtos de cães
Ao pensar em repelente ou coleira, não improvise. Os produtos antiparasitários feitos para cães, em especial os com permetrina, são muito tóxicos para gatos, que não conseguem eliminar essa substância. A International Cat Care (em inglês) alerta que o gato também pode se intoxicar ao encostar em um cão recém-tratado ou ao dividir o mesmo móvel. Os sinais incluem tremores, falta de coordenação e convulsões, e é emergência: procure o veterinário imediatamente. Pergunte ao veterinário qual produto é seguro para o seu gato e leia sempre o rótulo antes de usar qualquer coisa no animal.
Perguntas frequentes
Gato pode ter leishmaniose?
Pode. A infecção por Leishmania infantum já foi descrita em gatos no Brasil, inclusive em áreas endêmicas, mas parece menos frequente do que nos cães e muitas vezes não causa sinais.
O gato passa leishmaniose para as pessoas?
As fontes descrevem a transmissão pela picada do mosquito-palha, e não pelo contato direto com o animal. Se o gato pode ou não ser fonte de infecção para o mosquito ainda é discutido pelos pesquisadores.
Qual é o principal sinal da leishmaniose no gato?
As lesões de pele são o achado mais descrito. Também podem ocorrer emagrecimento e ínguas aumentadas. Como esses sinais são comuns a outras doenças, o diagnóstico depende de exames feitos pelo veterinário.
Existe vacina de leishmaniose para gato?
Segundo uma revisão científica de 2021, não há vacina nem medicamento disponível para prevenir a leishmaniose em gatos. Converse com o veterinário sobre o que é adequado para o seu gato.
Meu gato nunca sai de casa. Ainda corre risco?
O risco tende a ser menor, mas o inseto é muito pequeno e pode entrar por frestas ou por telas largas. Telas de malha fina e a limpeza do quintal ajudam.
Posso usar coleira ou repelente de cachorro no meu gato?
Não. Alguns produtos para cães são tóxicos para gatos, principalmente os que contêm permetrina. Use apenas o que o veterinário indicar para gatos.
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Aviso veterinário: este guia tem finalidade educativa e não substitui a avaliação de um médico-veterinário. Feridas de pele, emagrecimento e ínguas aumentadas têm muitas causas: em caso de dúvida, procure atendimento veterinário.
